Arnaldo Borges e o desafio de reunificar a ABCZ

Depois de uma disputa acirrada, Arnaldo Borges assume a presidência da maior entidade de criadores do Brasil com o desafio de reunificá-la e aproximar a genética do gado de elite da pecuária comercial

Por Luiz Fernando Sá, de Uberaba

O sol queima forte e espanta as pessoas das ruas de Uberaba, no Triângulo Mineiro. É sábado, 24 de setembro, e o calendário avisa que falta pouco mais e uma semana para as eleições municipais, mas não há sequer sinal de campanha na área central, nem carreatas, nem distribuição de santinhos. Apenas os outdoors espalhados em torno do Parque de Exposições Fernando Costa estampam um rosto de candidato, de um pleito que realmente agitou a cidade, mas já se encerrou há quase dois meses.

O homem dos cartazes, Arnaldo Manuel de Souza Machado Borges, 63 anos, é a face vencedora da mais ferrenha disputa da história da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), entidade com sede dentro do parque, mas com influência que vai muito além das fronteiras brasileiras, a ponto de colocar Uberaba no centro do mapa da pecuária mundial.

As decisões tomadas ali pela diretoria da ABCZ têm efeito nos plantéis de cerca de 23 mil associados, que, juntos, representam cerca de 80% dos 200 milhões de animas que formam o rebanho bovino brasileiro – o maior rebanho comercial do planeta, que transformou o Brasil no maior entre os países exportadores de carne. Mais do que a cara exposta na cidade, Arnaldinho, como é conhecido na região, será nos próximos três anos a imagem de uma atividade que, em grande parte em função da excelência do trabalho realizado pela entidade que agora dirige, incorporou tecnologia, modernizou sua gestão, ganhou peso político e musculatura econômica.

Clima diferente

O clima anda mesmo diferente naquele entroncamento simbólico para o desenvolvimento brasileiro. É a manhã do julgamento dos animais inscritos em algumas das principais categorias na Expoinel (Exposição Internacional do Nelore), segundo mais importante evento anual sediado no parque, perdendo apenas para a Expozebu. Os recintos estão repletos e a pista exibe o que de melhor a pecuária nacional tem sido capaz de produzir, mas muitos dos responsáveis pelo ótimo trabalho de seleção genética que mudou a imagem do zebu não estavam por lá, como em anos anteriores.

Ainda há resquícios de ressentimentos no ar. A ABCZ não via uma disputa entre chapas pela sua presidência havia mais de 20 anos. Arnaldo Borges, candidato da oposição, venceu por apenas 151 votos de vantagem, num colégio eleitoral formado por mais de 23 mil associados. A geografia da votação talvez explique por que, desta vez, ao caminhar pelo parque, Arnaldinho não encontre alguns membros da elite dos criadores que costumava se reunir por ali nos grandes eventos. Boa parte desse grupo apoiava Frederico Mendes, o candidato da situação, que teve larga vantagem entre os votos depositados nas urnas da sede da entidade. A surpresa no resultado final veio de longe.

“Foram dez meses em campanha”, conta Arnaldo. A voz é grave e a fala, sem pressa. “Nesse período estivemos em 19 estados. Eu, pessoalmente, fui a 16. Estive com representantes de mais de 150 sindicatos rurais e entidades ligadas à pecuária.” Assim, com números, o homem que traz no sangue 110 anos e três gerações de história familiar na pecuária justifica a votação que lhe deu a vitória. Na mesma conta apoia sua plataforma para a gestão na entidade, iniciada em setembro passado. “Minha marca será a da participação de todos, como dizia nosso slogan de campanha: ABCZ de A a Z, ABCZ para todos”, afirma.

Memória

Enquanto fala a PLANT, Arnaldo se mantém em viagem. A todo momento busca causos e referências em algum canto da memória, cita locais e criadores distantes. “Meu primeiro evento como candidato foi na fazenda do Cícero de Souza, em Campo Grande.” “Nunca tinha ido ao Acre. Fiquei impressionado com o trabalho que fazem lá.” “Na Paraíba, o Manuelito (Emanuel Dantas Villar), primo do Ariano Suassuna, faz pecuária em cima da pedra, numa das regiões mais secas do País. É um trabalho fantástico.”

A prosa segue no seu ritmo particular. Arnaldo evita crítica direta à gestão anterior. Ao contrário, frequentemente ressalta o trabalho feito pelo grupo que derrotou. Tem muitos amigos ali e sua história está umbilicalmente ligada à ABCZ, da qual já foi diretor e integrante do corpo técnico por mais de 30 anos. Aos 63 anos, enfrentou um concorrente de 46, mas se apropriou do discurso de renovação. “Levei quatro meses para formar a diretoria, pedindo indicações e tentando fazer com que todos se sentissem representados, todos as regiões, todas as raças”, diz. Ao final, 91% da chapa (que inclui 96 pessoas, entre diretoria, conselho fiscal e diretores estaduais) era formada por gente que nunca participou da gestão da ABCZ. Dos 17 diretores nacionais, 15 não faziam parte da gestão anterior e apenas cinco são de Uberaba.

“Antes, a renovação era restrita ao previsto no estatuto. A maioria dos diretores estava na quarta gestão.” É o máximo de crítica que fará aos antecessores. Nem mesmo a feita veladamente por muitos, de que a antiga ABCZ era muito fechada em Uberaba, ele encampa. Prefere dizer que “tem uma oportunidade de trazer para dentro gente que não participava”.
Com tanta gente nova no grupo, assumir a gestão tem sido um trabalho árduo. Há muita informação a ser recebida e muitas decisões a serem tomadas. Arnaldo tem uma primeira questão em mente: a queda de registros de animais na ABCZ.

Preocupações imediatas

Nos últimos três anos, diz, foram contabilizados 177 mil registros de nascimento e 56 mil registros definitivos a menos. Isso traz duas preocupações imediatas ao novo gestor. A primeira é a queda de receita – os registros são a principal fonte de renda da entidade. A segunda é a redução do rebanho apto a participar dos programas de melhoramento da ABCZ, cujo objetivo é fazer chegar ao rebanho comercial as melhores características genéticas dos touros e vacas de elite.

Arnaldo tem um diagnóstico e um plano para reverter o quadro. Para ele, os custos e o excesso de exigências para a realização desses registros têm espantado os pecuaristas. “Precisamos simplificar esses processos e dar mais autoridade ao nosso técnico de campo, diminuindo as idas e vindas de relatórios. Muitas vezes, por causa da burocracia, o prazo acaba se perdendo e os registros deixam de ser feitos”, explica.

Arnaldo tem o olhar apurado. É um dos mais reconhecidos julgadores de gado do País e costuma ser convidado para avaliar animais em exposições e propriedades mundo afora – participou de mais de 500 julgamentos. Costumava passar uma média de 300 dias por ano na estrada trabalhando como consultor e visitando clientes em todo o Brasil (e também nos países vizinhos). Enquanto circula, mantém ouvidos também atentos. Tem escutado muitas demandas e afirma que atendê-las é, agora, um compromisso. “Cada região tem suas questões específicas, precisamos tratá-las isoladamente”, diz.

De um grupo do Mato Grosso do Sul com mais de 30 mil matrizes Nelore, por exemplo, recebeu o pedido para que aproximasse mais a ABCZ dos rebanhos comerciais e dos grandes projetos de pecuária. “A marca ABCZ é muito forte e estar próximo a ela interessa aos grandes pecuaristas”, explica. Para Arnaldo, surge aí outra oportunidade, a de desenvolver um trabalho de melhoramento desse rebanho comercial a partir da capacidade técnica da entidade, que poderia fazer avaliação, diagnósticos, orientação genética de acasalamento e criar até mesmo uma certificação para o gado a ser abatido.

Arnaldo pretende estimular também a expansão dos programas de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), que também tem interessado cada vez mais aos criadores já que alia a produção à recuperação de pastagens e a preservação ambiental. “O cliente internacional exige isso e precisamos estar prontos para entregar o que ele quer.”

A expansão da zona de influência da ABCZ também é uma das marcas que Arnaldo pretende imprimir em sua gestão. Logo após a posse, ele seguiu para Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, onde vários brasileiros já possuem rebanhos de alta qualidade. O país é um dos mais antigos parceiros da ABCZ, que hoje forma técnicos e exporta conhecimento para lá. “Para os pecuaristas, a Bolívia é hoje um prolongamento do Brasil”, diz. A entidade está presente também em vários outros países do continente e também na África, através de convênios técnicos ou de assessoramento na criação de programas de registros ou de melhoramento genético. Missões estrangeiras continuam chegando a Uberaba. Arnaldo começa uma nova viagem. “Recebemos contatos de Costa Rica, Guatemala, Colômbia. Cuba, também. Estive lá por 12 dias em 2014 durante a Copa do Mundo.” Continua. “O Equador quer implantar um sistema de registro como o nosso.” E por aí vai. Até a Índia, berço das raças zebuínas, veio atrás dos avanços desenvolvidos aqui para o gir leiteiro. “Há um mercado imenso para a genética do zebu brasileiro. Podemos vender sêmen, embriões, tecnologia.” E também serviços.

Patrimônio genético

O próprio Arnaldo prestava consultoria em países vizinhos. Agora, na visita à Expocruz, na Bolívia, percebeu que o mercado pode ser bom também para técnicos, tratadores, casqueadores, especialistas em reprodução e laboratórios, entre outros. “Tinha muito brasileiro lá trabalhando.”

Criado à base de leite de vacas gir, Arnaldo tem seu próprio rebanho em Uberaba. A fazenda Ipê Ouro, de mil hectares, tem 300 fêmeas PO, um patrimônio genético forjado com cuidado nos últimos 35 anos. Com a nova missão de presidir a ABCZ, ele transferiu a gestão dos negócios ao casal de filhos, encarregados também de perpetuar o nome da família Machado Borges na pecuária brasileira. Arnaldo fala com orgulho do busto do avô na entrada do Parque Fernando Costa, de como o antepassado ajudou a definir que aquela colina próxima ao centro de Uberaba seria escolhida para sediá-lo. Ali, ao lado do recinto de julgamentos, onde tantas vezes ajudou a premiar os melhores exemplares das raças zebuínas, ele sente-se em casa. Agora, a casa tem a sua cara.