Como é comandar uma poderosa companhia de cana

Entenda como o jovem empresário Fabio de Rezende Barbosa dirige, com simplicidade e eficiência, uma das mais produtivos empresas de cana do mundo e perpetua uma das maiores dinastias do setor sucroenergético 

Por Nelson Cilo, de Tarumã, São Paulo
Fotos: Airam Abel

Quem perguntar sobre a família Rezende Barbosa em qualquer município da região do Vale do Paranapanema, extremooeste paulista, logo perceberá que o clã se tornou, nas últimas décadas, praticamente um sinônimo de cana-de-açúcar. Seus membros são reconhecidos pela população da região pelo que produzem, mas também pela forma com que contribuíram para o desenvolvimento e a educação de várias gerações de trabalhadores.

Pela discrição com que comandam seus negócios, porém, essa popularidade permanece, de certa forma, regional. A relevância que, ao longo de sete décadas, emprestaram ao setor sucroenergético brasileiro permitiria muito mais. Não seria exagero compará-los a nomes como os dos Gerdau no aço, dos Lafer em papel e celulose ou mesmo os Diniz no varejo brasileiro.

Foram eles os responsáveis pela construção de um das maiores grupos sucroalcooleiros do Brasil, o NovAmérica, principal locomotiva de riqueza e emprego em cidades como Assis, Tarumã e Maracaí, além de dezenas de outras que fazem a roda de suas economias girarem com a força dos canaviais.

Destaque no mercado mundial

Dali, trabalhando em silêncio, os Rezende Barbosa exercem influência positiva no mercado global. Estão entre os maiores fornecedores de cana do mundo e suas lavouras são conhecidas internacionalmente pelo padrão de eficiência e produtividade. Estão, ainda entre os principais acionistas do grupo Raizen, controlado por Rubens Ometto, posição conquistada após a troca de parte dos ativos familiares por ações da companhia em 2008.

O NovAmérica, porém, continua sob os cuidados da família fundadora, em sua quarta geração. O principal executivo no comando da companhia é o superintendente Fabio de Rezende Barbosa, que com apenas 40 anos de idade conduz os negócios com desenvoltura em um ambiente desafiador para o setor de etanol e açúcar. “Acho que tenho etanol e açucar no DNA. Quando consigo resolver todos os problemas, arranjo outros para não me sentir parado”, diz, com um sorriso típico de quem não parece ter medo de enfrentar desafios.

É fácil notar que Fabio carrega consigo as características que definem o estilo Rezende Barbosa de gestão. Ao receber a reportagem na unidade de Tarumã, a poucos quilômetros do imponente Rio Paranapanema, que separa São Paulo da região Norte do Paraná, ele mostrou que a descontração e a simplicidade são parte de sua personalidade.

Durante  todo o tempo, o homem que administra uma área plantada de 95 mil hectares de cana-de-açúcar e dela tira uma produção anual que supera a marca de 6 milhões de toneladas fez questão de manter o boné entalado na cabeça, além de não demonstrar preocupação de posar para fotos com um batido colete escuro e uma calça jeans folgada. Definitivamente, não se trata de um alto executivo cheio de pose ou de retóricas.

Indústria da cana

Com esse estilo peculiar, Fábio tem conseguido transformar a NovaAmérica em uma referência de eficiência na indústria da cana. A empresa tem conquistado seguidos prêios de produtividade, como o conferido no 18º Seminário de Mecanização e Produção da Cana-de-Açúcar na safra 2015/2016. Este foi o sétimo troféu consecutivo. “O aumento da produtividade é resultado dos esforços de todos os funcionários em fazer o trabalho cada dia melhor”, justifica Fabio.

O prêmio deste ano chegou às mãos dos executivos da NovAmérica graças ao programa de excelência na agricultura de precisão, colocado em prática na unidade Tarumã. A usina superou outras 13 finalistas de São Paulo, Paraná, Goiás e Minas Gerais. A comissão julgadora analisou o desempenho dos concorrentes acima da média nacional. O ATR (Açúcar Total Recuperado) da NovAmérica atingiu 127 quilos/tonelada, resultado até 12% superior ao de seus concorrentes.

Fábio de Rezende Barbosa não quer perder o ritmo. Em 2016 a NovAmérica tem investimentos previstos de R$ 120 milhões em tecnologia e compra de equipamentos destinados ao plantio e moagem. As decisões são sempre baseadas em pesquisas sobre o que há de mais avançado no setor.

Cenário para o setor sucroalcooleiro

O cenário que o executivo vislumbra é de recuperação das empresas sucroalcooleiras, com a tendência de recuperação dos preços internacionais, depois de anos de crise aguda. Fábio acredita que o setorterá uma oportunidade para reforçar o caixa e reduzir o endividamento. Mas, segundo ele, as circunstâncias favoráveis dependem, como sempre, das condições climáticas.

Não são os números, no entanto, que movem Fábio de Rezende Barbosa, economista por formação e fluente em inglês, francês e espanhol. Quando perguntado sobre faturamento e percentuais de crescimento da NovAmérica, ele se esquiva. “Os números, para cima ou para baixo, não são importantes. O que importa é como vou aparecer na foto. Este ângulo está melhor?”, brinca o discreto rei dos canaviais paulistas, enquanto é clicado em meio às suas plantações.

A simplicidade não significa que ele seja um produtor à moda antiga, focado apenas com o que acontece da porteira para dentro. Desde a hora que acorda, às 5h da manhã, até a hora de começar o expediente, às 8h, o empresário lê o notíciário nos jornais impressos da região e zapeia em sites internacionais em seu tablet. O foco, evidentemente, é o universo agrícola e as cotações das commodities. “Estar antenado ao que acontece no mundo é essencial nos momentos de tomadas de decisão”, afirma.

Diferentes gerações

A autoconfiança com que Fábio dirige a NovAmérica é resultado de conhecimento acumulado por décadas por seu pai, Roberto, e seu avô, Renato. A história agrícola da família começou na verdade com o bisavô Eugênio, com produção de café em Minas Gerais. No início do século 20, ele diversificou os negócios com a aquisição de uma propriedade em Cravinhos (SP), onde se iniciou no plantio de algodão, além de cultivar café também na Fazenda Estrela D’Oeste, em São Simão (SP).

Depois da morte de Eugênio, a esposa dona Olga Ottoni de Rezende Barbosa decidiu assumir os negócios. Em 1944, Renato, avô de Fábio, comprou a Fazenda Nova América para instalar a primeira usina de açúcar cristal e álcool do Vale do Paranapanema. Surgia, então, uma das mais importantes dinastias sucroalcooleiras do Brasil. “De
lá para cá, tudo aconteceu de forma impressionante”, diz Fábio.

O crescimento, de fato, foi tão rápido quanto bem estruturado. Em 1957, a família adquire a Usina Maracaí (SP). Em 1959, com os usineiros Maurílio Biaggi e Paulo Reis Magalhães, Renato funda a Coopersucar (Cooperativa de Produtores de Cana, Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo), da qual se desgarraria nos anos 1970. Foi quando o pai de Fábio, Roberto, assumiu o leme do grupo.

Tecnologias inovadoras

No comando, ele investiu alto em inovadoras tecnologias para, em 1975, ser um dos pais do Programa Nacional do Álcool (Proalcool). Os 30 anos seguintes foram de diversificação e aquisições. A maior delas, em 2005, trouxe da Coopersucar para o grupo a marca União, a mais tradicional na memória dos consumidores brasileiros.

O embalo dos negócios levou a NovAmérica para novas fronteiras agrícolas, mais especificamente o Mato Grosso do Sul. Em 2006, implementou o projeto de Agroenergia em Caarapó (MS), para produção de etanol, açúcar e energia a partir da biomassa. A fusão com a Cosan (hoje rebatizada para Raizen), em 2009, incluiu o sobrenome Rezende Barboza em um grande projeto energético global.

A partir dela, Roberto e os dois irmãos (Renato e José Eugênio) puderam equacionar um processo de cisão de ativos, concluído em 2010. A Roberto e o filho Fábio couberam, além da fatia acionária na Cosan, o controle das propriedades de Tarumã e Caarapó. Tornaram-se, assim, os legítimos herdeiros do DNA de açúcar iniciado em 1944 e iniciaram um novo processo de crescimento. “Não podemos parar. Quem para, fica para trás”, finaliza Fábio.