O papel da educação no agronegócio. Por Plinio Nastari

A educação do produtor passou a ser fundamental para disseminar tecnologias mais avançadas de produção e para evitar ou corrigir desvios e problemas causados pelo clima ou o uso de práticas inadequadas

Por Plinio Nastari *

O agronegócio é reconhecido como uma das mais eficientes alavancas de promoção de desenvolvimento econômico. Para o Brasil, em particular, que é abundante em terras férteis e mão-de-obra capacitada na agricultura mas escasso em capital, o agronegócio é setor estratégico para o crescimento e o desenvolvimento econômico e social. O efeito multiplicador da renda gerada nesse mercado é estimado em 12 a 14 vezes, tendo sido responsável pelo surgimento de vários polos regionais de desenvolvimento.

É com esse pano de fundo que, num mundo cada vez mais competitivo e de informações integradas, a educação do produtor e do consumidor passou a ser o grande instrumento para facilitar o acesso a mercados, garantir a geração de valor, atender a exigências cada vez mais intensas e específicas dos consumidores e aumentar sua capacidade de atribuir e discriminar valor para os produtos disponíveis no mercado.

Disseminação de tecnologias

A educação do produtor passou a ser fundamental para disseminar tecnologias mais avançadas de produção, para evitar ou corrigir desvios e problemas causados pelo clima ou o uso de práticas inadequadas, para capacitá-lo a atender padrões mais exigentes na geração, armazenamento e transporte de produtos agrícolas e, no limite, permitir a intensificação de práticas voltadas ao uso sustentável de recursos naturais finitos como a fertilidade dos solos, água, a preservação da biodiversidade, a rastreabilidade, a denominação de origem e padrões avançados de sanidade vegetal e animal.

Existem vários exemplos nos mercados de leite, café, açúcar, cereais, soja, milho, produção de carnes branca e vermelha em que a produção gerada segundo critérios considerados avançados permite ao produtor ter acesso a preços mais altos e assegurar demanda garantida para sua produção. É, por exemplo, o caso do leite produzido para o abastecimento de plantas de leite em pó, em que o produtor que atende aos quesitos de qualidade e sanidade recebe prêmio de 40% a 50% sobre aquele auferido no mercado convencional.

A educação do produtor começa pela base. É preciso formar um contingente cada vez maior de mão-de-obra capaz de entender novas práticas e aplicar novas tecnologias disponibilizadas num ritmo crescente por um grande contingente de pesquisadores, universidades e institutos de pesquisa públicos e privados. Grandes empresas globais investem um percentual elevado, muitas vezes superior a 10%, de seu faturamento, no desenvolvimento de novas tecnologias. É esse processo que tem permitido a contínua evolução da produtividade agrícola. No meio-oeste dos Estados Unidos, desde a década de 1940, a produtividade do milho cresceu de cerca de 40 para os atuais 173 bushels por acre (veja explicação pra bushel no final do texto).

O Brasil está no mesmo caminho, com a vantagem de poder produzir duas safras por ano – soja e milho. Estar preparado para absorver a evolução tecnológica, o que faz toda a diferença para a sobrevivência num mercado competitivo.

Impacto econômico e social

Iniciativas voltadas à formação de mão-de-obra para a agricultura são raras, apesar de muito relevantes e de grande impacto econômico e social. Por esse motivo deve ser reconhecido o meritório, e silencioso, trabalho realizado há décadas por iniciativas como a da Fundação Bradesco em Bodoquena-Miranda, no Mato Grosso do Sul, e Ilha do Bananal, no Tocantins.

Um outro vetor igualmente relevante da educação no agronegócio é aquele voltado ao consumidor, para que possa reconhecer a diferenciação e valorizar adequadamente o produto que é colocado à sua disposição.

Um grão de soja ou de milho embute uma carga tecnológica muito grande. Ainda são poucos os consumidores que reconhecem que o etanol hidratado produzido a partir da cana no Brasil, considerado avançado no exterior e distribuído numa rede de postos de revenda de abrangência continental no Brasil, é uma das opções de combustível para mobilidade mais modernas e ambientalmente sustentáveis dentre as desenvolvidas em todo o mundo – mais avançada até do que a dos carros elétricos, quando se avalia a origem da eletricidade, muitas vezes advinda da queima de combustível fóssil.

Consumidores conscientes

Na era da informação, os consumidores estão cada vez mais interessados em reconhecer – e valorizar – o conhecimento sobre a origem, a prática empregada na geração primária e sua transformação até sua disponibilização na gôndola. Ferramentas como códigos de barra e QR codes têm sido usados de forma crescente para transmitir esse tipo de informação ou atributos.

Desenvolveu-se assim um novo mercado de informação e discriminação de produtos, com uma enorme capacidade de gerar novos empregos de qualidade e novas formas de criar valor. Mas, para que isso funcione, é preciso informar o consumidor, para que valorize o produto que atende a critérios que considere superiores.

Um dos temas centrais do evento Global Agribusiness Forum é a importância da educação do produtor e do consumidor para a geração e o reconhecimento de valor nos diferentes elos da cadeia do agronegócio. Essa será uma das mais importantes alavancas de expansão e acesso a mercados de produtos agrícolas em todo o mundo.

  • Plinio Nastari é presidente da Datagro Consultoria

Obs: (*) Um bushel de milho equivale a 56 libras, ou 25,40 kg. Uma saca de milho pesa 60 kg, ou 2,36210 bushels.Casa bushel/acre equivale a 62,77 kg/ha. 173bushels por acre equivalem a 10,86 toneladas métricas por hectare, ou 181 sacas de 60 kg por hectare.