João Carlos de Figueiredo Ferraz, o empresário rural que trocou a cana pela arte contemporânea

João Carlos de Figueiredo Ferraz mudou de ares há alguns anos e plantou em Ribeirão Preto um projeto inédito para exibir uma das mais valiosas coleções do Brasil

Primeiro ele desistiu. Depois, cansou. E ele não tem vergonha de falar isso abertamente. Quem passa por uma rua pouco movimentada no bairro Alto da Boa Vista, em Ribeirão Preto (PT), descobre que tudo foi por um motivo nobre. Foi pela arte, pela cultura e pela educação. Uma moderna construção com 3 mil metros quadrados, nascida há apenas cinco anos e rodeada por tradicionais residências dos anos 70 e 80 no bairro que já foi um dos mais nobres da cidade do interior paulista, é a sede do Instituto Figueiredo Ferraz

O projeto é inédito no País, por ser museu particular aberto e com um espaço arquitetônico próprio. No comando está João Carlos de Figueiredo Ferraz, empresário e uma das principais lideranças do setor produtivo de açúcar e etanol até meados da década passada. Ex-acionista do grupo Vale do Rosário e ex-presidente da Crystalsev, uma das maiores tradings do setor no mundo, Ferraz ainda comandou o conselho da União das Indústrias de Cana-de-Açúcar (Unica). Até que em 2007, com a incorporação das unidades da Vale do Rosário pelo grupo Santa Elisa e a criação da SantelisaVale, hoje Biosev,  ele começou a sair do agronegócio.

Paixão pela arte

Nos dois anos seguintes, atuou no conselho da Guarani, braço de açúcar e álcool do grupo francês Tereos no Brasil. Após desistir do cansativo dia a dia empresarial, Ferraz seguiu como um empresário rural, pecuarista e fornecedor de cana. Mas a paixão pela arte falou mais alto e ele resolveu levar adiante o audacioso projeto que hoje lhe dá prazer

A ideia era construir um local para abrigar as cerca de mil obras de arte contemporâneas que Figueiredo Ferraz havia adquirido desde 1983, o que lhe garante o posto de um dos dez maiores colecionadores de arte do País. Mesmo que fosse para apenas retirar as obras das caixas e admirá-las com amigos, ou mesmo sozinho, exercendo a paixão que o levou ao conselho dos principais museus do País, como o Museu de Arte de São Paulo (Masp) e o Museu de Arte Moderna (MAM), e ainda o Museum of Modern Art (MoMA), em Nova York.

A ideia do Instituto Figueiredo Ferraz surgiu em conversas do empresário com o amigo Marcelo Mattos Araújo, ex-secretário de Cultura do Estado de São Paulo e à época diretor da Pinacoteca. “Nas conversas, ele (Araújo) disse que seria ótimo que a minha coleção viesse em comodato para a Pinacoteca. Eu disse que não a levaria para São Paulo, mas queria que a Pinacoteca viesse para Ribeirão Preto e ele adorou a ideia”, explica Ferraz.
Mas Ferraz cansou. E admite isso com orgulho. “Em dez anos não consegui convencer nenhum prefeito a me apoiar, apesar de todos falarem sim. Cansei de esperar, surgiu o terreno, comprei-o e fiz o instituto”, disse. “Se eu dependesse de Estado, não viraria nada”.

Instituto Figueiredo Ferraz

Em 2011, nasceu o Instituto Figueiredo Ferraz. A proposta inicial do empresário era fazer espaço fechado para visitação, com horário marcado. Mas logo mudou de ideia. Quando o prédio foi ficando pronto, Ferraz resolveu chamar o amigo, professor e crítico de arte Aguinaldo Farias. Ele seria o primeiro curador a fazer um recorte das quase mil obras do acervo e levar cerca de 150 para os 2.500 metros quadrados da área de exposição.

“A primeira curadoria resultou em uma exposição tão bonita que não fazia sentido ficar com as portas fechadas. Resolvi abrir, sem cobrar nada, e imaginei que viriam três gatos pingados de curiosidade para ver o que tinha aqui dentro”. Inicialmente, o público era mesmo pequeno, mas a propaganda boca a boca trouxe mais visitantes, até uma média de 3 mil por ano. No segundo ano de existência surgiram convênios com as secretarias estadual e municipal de Educação para visitas guiadas de estudantes. Tudo com o suporte de patrocinadores como o Itaú Cultural e o grupo sucroenergético Guarani/Tereos. No ano passado, 15 mil estudantes visitaram o Instituto.

A cada ano, um curador novo é escolhido para a exposição principal, entre março e dezembro. A de 2016, batizada de “O Estado da Arte”, foi comandada por Maria Alice Milliet. “Para mim é divertido ver como os curadores conseguem fazer as aproximações que eu próprio não tinha visto”, relata Ferraz. O visitante encontra um paraíso de diversidade artística, como pinturas, instalações, esculturas e fotografias.

Expoentes

Entre os artistas estão estrelas como Adriana Varejão e Nuno Ramos, mas com uma característica comum, segundo Figueiredo Ferraz. “Eu sempre compro do artista jovem, que depois valoriza. A maioria comprei por um valor irrisório”.
Mas entre as várias obras chama a atenção um dos “vidros” gigantescos de Marcius Galan, na obra “Secção Diagonal”, de 2011, um projeto feito exclusivamente para o local e que nunca deixou o espaço, mesmo com as mudanças nas exposições anuais. “Você imagina o trabalho que deu para colocar esse ‘vidro’ aí?”, brinca Ferraz, que faz questão de levar as visitas para olhar essa obra. E quem conhece Galan ou visitou o local sabe o motivo da brincadeira do empresário.

Para ele, a logomarca do empreendimento representando uma pessoa de braço abertos, mostra o que ele pensa da arte.  “A arte tem que ser vista, compartilhada.Esse negócio de trancar obras é um absurdo. A formação de uma nação vem da sua cultura e você não pode privar as pessoas de verem isso”, conclui o empresário. Agora, ele não mais desiste e nem se cansa. Está sempre de braços abertos aos visitantes do Instituto Figueiredo Ferraz.