Como o desenvolvimento da agricultura ajudou o Oeste baiano

Depois de consolidar suas lavouras, o Oeste baiano entrou numa espiral de crescimento movida pela agroindústria, infraestrutura, tecnologia e serviços

Por Catarina Guedes, de Luís Eduardo Magalhães (Bahia)

Reza a lenda que nos anos de 1980 um sujeito com muita coragem e dinheiro suficiente para comprar um maço de cigarros poderia adquirir um hectare de terra no Oeste da Bahia, a imensidão quase esquecida à margem esquerda do rio São Francisco. Como o valor era irrisório, o fator de decisão era mesmo a coragem, porque – dizia-se – aquelas terras não compensavam sequer o arame da cerca.

Primeiro, porque eram muito ácidas e arenosas, características típicas dos solos do cerrado que então despertavam pouco interesse dos agricultores. Depois, pelo isolamento: estavam a mil quilômetros de Salvador e a 500 quilômetros de Brasília, em uma época de estradas ruins, telefonia incipiente e eletrificação precária.

O Oeste era tão distante e isolado que nem os governos chegavam lá. Ou talvez fosse remoto porque estava fora da agenda dos governantes. Por isso, teve de ser aberto no braço. Hoje, cerca de arame é raridade em um dos maiores polos de produção agrícola do Brasil, dono de recordes mundiais de produtividade e que cresce em ritmo chinês. O desenvolvimento da agricultura na região resultou do investimento intensivo em tecnologia em variedades adaptadas às condições de clima e solo locais, máquinas, químicos e manejo apropriado.

A evolução nas lavouras acarretou uma espiral de desenvolvimento em setores diversos, com a chegada das agroindústrias e o incremento na infraestrutura, tecnologia, serviços, educação e comodidades. Se hoje o Oeste da Bahia não é tanto uma fronteira agrícola, no sentido mais desafiador do termo, ainda guarda oportunidades de negócios para quem além do capital e da coragem dos primeiros desbravadores, detém requisitos como conhecimento, capacidade de gestão e visão de mercado.

Soja é moeda

Para os corretores, a saca de soja é moeda corrente e dá uma dimensão mais precisa da valorização dos imóveis rurais. Hoje um hectare na região vale em média de 400 a 500 sacas de soja, ou de R$ 25 mil a R$ 30 mil — em casos excepcionais, chega a 600 a 800 sacas o hectare, segundo Marcelo Padilha, da corretora Fragatta. De acordo com a estimativa da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba) para a safra 2015/16, o Oeste deve colher quase seis milhões de toneladas de grãos, em uma área de 2,3 milhões de hectares.

A soja, cultura precussora, ocupa 65% da matriz produtiva, na qual se destacam ainda algodão, milho, café e frutas, com a entrada cada vez mais expressiva da pecuária, em projetos de confinamento para leite e corte. A região é a segunda maior produtora de algodão do País, e reconhecidamente uma das melhores origens em qualidade de fibra. Na atual safra, a cultura ocupa 250 mil hectares, com expectativa de produtividade média de 173 arrobas de capulho por hectare.

As estimativas mais conservadoras apontam que ainda é possível somar cerca de um milhão de hectares à área plantada da região, mas há muita controvérsia a respeito. “Na minha opinião, o Oeste pode chegar a quatro milhões de hectares ocupados com lavouras, respeitando totalmente a legislação ambiental. Se desenvolverem plantas mais resistentes ao déficit hídrico, essa margem pode aumentar”, diz o produtor rural Sergio Pitt, um dos pioneiros na região e hoje secretário de Indústria e Comércio do município de Luís Eduardo Magalhães.

Plano de vôo

A família Rangel é uma prova da diversificação produtiva do cerrado baiano. Nada de soja, algodão ou milho. Em 2009, eles fundaram em Barreiras a Aero Centro, que monta e comercializa as aeronaves RV, da americana Van’s Aircraft e, desde 2012, trabalham na pesquisa e desenvolvimento de uma aeronave executiva para cinco passageiros, 100% desenvolvida na cidade, o Kronos 315. Segundo os empresários, uma iniciativa inédita no Brasil nessa categoria.
Para isso, o piloto Kleber Rangel, os filhos Kaio e Thiago e a esposa Lucilene investiram cifras vultosas na contratação de engenheiros e técnicos de várias partes do mundo. Investiu também na formação dos membros da família. Kaio

tem 23 anos e vive a aviação desde que nasceu. Piloto com mais de três mil horas de vôo, aprimorou os conhecimentos na Tutima Academy of Aviation Safety, na California. Aos olhos do pai, é ele quem entende tudo sobre o Kronos 315. O jovem explica que o Kronos 315 será uma aeronave homologada, de asa baixa e alta performance. Além disso, é segura, de fácil operação e foi pensada para atender à demanda dos produtores rurais e empresários que pilotam. “A meta era lançá-la no mercado em 2017, mas tivemos de mexer no cronograma pela dificuldade de encontrar linhas de crédito e entidades que avaliem o valor de projetos como esse”.

De aeródromo a  “aerotrópole”

Os agricultores do Oeste entenderam desde os primeiros anos que de nada adiantaria esperar que o poder público lhes provesse infraestrutura. Por isso, juntaram esforços para sanar uma lacuna na logística do município de Luís Eduardo Magalhães: a falta de um aeroporto dimensionado para grandes aeronaves. O município dispunha de um aeródromo, mas em caso de viagens com aviões maiores, era em Barreiras, a 90 km de distância, que pousavam.

Em 2007, um grupo de empresários e agricultores locais decidiu construir uma estrutura compatível com essa demanda. Identificou então um trecho da Fazenda Agronol, a um quilômetro da entrada do Centro de Pesquisa e Tecnologia do Oeste da Bahia (CPTO) — sede da Fundação Bahia e da Bahia Farm Show, uma das três maiores feiras de tecnologia agrícola do Brasil. “Uma localização estratégica”, conta o secretário Pitt, um dos integrantes do grupo.

A área foi cedida pelo grupo Santa Izabel, capitaneado pelo empresário Ferdinando Magalhães. “Após conseguirmos a área, estabelecemos uma Parceria Público Privada com o governo da Bahia, na qual os empresários doavam a área e se comprometiam a fazer todo o trabalho de base”, explica. Isso aconteceu em 2010. As obras começaram, enfrentaram desgastes com a morosidade nos processos de licenciamento ambiental, mas o aeroporto hoje é uma realidade.

A estrutura dispõe de pista de 2 mil metros, pátio de 40 mil metros quadrados e hangar. Em 2015, novamente com a colaboração financeira de empresários locais, foi construída uma estrada de acesso ao parque da Farm Show, uma pista de taxiamento para as aeronaves, além da iluminação para pousos e decolagens noturnos. O Estado entrou com o asfalto.

Entre recursos públicos e privados, foram investidos R$ 35 milhões no aeroporto. “Agora estamos trabalhando para fazer dele um equipamento público junto à ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil)”, diz Pitt. “A localização geográfica de Luís Eduardo Magalhães é estratégica tanto para a agricultura da Bahia, como também para torná-la um centro logístico do Nordeste brasileiro. A combinação de um aeroporto de porte, um centro industrial, uma cidade planejada, com rede hoteleira e comércio forte transformará Luís Eduardo Magalhães em uma verdadeira ‘aerotrópole’ regional”, vislumbra o secretário.

É melhor ficar

“Eu cresci com o agro e devo tudo à agricultura. O campo me possibilitou ser quem eu sou, viajar, aprender e consumir produtos diferenciados. Mas a minha realização pessoal é a moda, que está intimamente ligada ao setor agrícola”, conta Vanessa Horita, nascida em Barreiras em meio a uma das famílias pioneiras na produção de algodão no cerrado.

Com uma formação que incluiu passagem pela Cotton School, em Memphis, no Tennessee, e estágio em algumas das tradings mais famosas do mundo na comercialização da commodity, ela uniu a familiaridade com a produção ao seu amor por moda. Hoje é uma fashion influencer para os milhares de seguidores de suas redes sociais, e uma imagem valiosa que o comércio local adora – e paga – para ver associada aos seus produtos. Com conhecimento e meios para se estabelecer em mercados pelo mundo afora, optou por Barreiras e região, por vislumbrar ali um nicho rentável e um público de alto poder aquisitivo.

Como muitos jovens com facilidade de comunicação e inteligência, Vanessa está organizando seu canal no Youtube. Mas, se conquista seguidores e curtidas na internet, a base dos seus recursos vem do mundo real. “Tenho uma carteira de serviços variada e uma agenda cheia”, afirma. Palestras, produções de moda para eventos e editoriais, consultoria de compras presencial e por whatsapp e até uma linha de óculos com seu nome estão nessa agenda. “Transformei em negócio uma atividade que já fazia espontaneamente, que é dar conselhos de moda e estilo”.

Cidade agro digital

Quando chegou ao Oeste da Bahia em 1980 nem o Posto Mimoso existia, conta o empresário e prefeito de Luís Eduardo Magalhães (LEM), Humberto Santa Cruz, referindo-se ao posto de combustíveis que foi o embrião do município, emancipado de Barreiras nos anos 2000. Santa Cruz, engenheiro civil do grupo Santa Isabel, mudou-se do Rio de Janeiro para Barreiras aos 32 anos com a missão de tocar o novo investimento do grupo, a Fazenda Agronol, que inicialmente seria um empreendimento canavieiro. Trinta anos e muitas guinadas depois, seu entusiasmo de desbravador só aumenta.

O projeto de cana-de-açúcar não vingou e foi substituído por culturas adequadas ao contexto da região. Hoje a Agronol produz soja, milho, algodão, mamão e café com irrigação. Sócio do grupo, há oito anos deixou o cargo de diretor superintendente e decidiu disputar a prefeitura de LEM.

A política partidária não estava nos planos do pioneiro, que se tornou a primeira liderança classista da região ao fundar a Associação dos Agricultores e Irrigantes da Bahia, a Aiba, em junho de 1990. “Éramos 16 irrigantes preocupados em preservar o recurso mais valioso que tínhamos, a água”, lembra. “Mapeamos com GPS todos os projetos de irrigação existentes, a vazão de cada bomba e entregamos as informações ao governo baiano”. O objetivo era que fossem criadas políticas para garantir o uso racional e sustentável do patrimônio hídrico.

Ao longo do caminho, a Aiba ganhou abrangência estadual e respaldo nacional. Saltou dos 16 membros iniciais para 1,3 mil associados. “Tínhamos um modus operandi muito bem definido. Ao invés de esperar que fizessem algo pela região, diagnosticávamos o problema, buscávamos a solução e então resolvíamos por nossa própria conta ou propúnhamos uma solução compartilhada com o poder público”, explica. As parcerias entre os agricultores e governos através da Aiba respondem em grande parte pelo desenvolvimento da região, de eletrificação rural a telefonia e pavimentação de vias. As muitas vitórias se tornaram referência para outras associações no País.

Já LEM passou de 18 mil habitantes à época da emancipação para os atuais 90 mil. É a oitava economia da Bahia, ultrapassando Barreiras, décima primeira. Em 2014, seu valor agregado da produção foi da ordem de R$ 3, 3 bilhões. Agora, em parceria com a gigante chinesa de tecnologia de informação e comunicações Huawei, o município se tornou uma Cidade Digital, com 72 quilômetros de fibra ótica e banda de 300 mega de internet 4G que integra todos os serviços e prédios públicos.

Parte disso é o Centro de Controle e Operações (CCO), com sistema de vídeo-monitoramento através de 700 câmeras espalhadas na zona urbana, que se comunica online, por exemplo, com as polícias, hospitais e serviços de emergência. “Essa tecnologia se soma a tudo o que representa Luís Eduardo para o agro brasileiro e nos permite criar novos laboratórios, inovar e empreender. Temos um aeroporto, localização estratégica, indústria forte, universidades e muitas oportunidades de negócios”, completa Santa Cruz.